Lançamento do Livro: Cápsula Tarja Preta

Essa poesia é Tarja Preta. Mas esse prefácio não pretende ser a bula. Nada de prescrições para o leitor que deverá usufruir o coquetel sem moderação.

As analogias entre literatura e medicina, aqui, não devem ser pensadas como dosagem disciplinada das cápsulas poéticas visando à cura. Poesia não cura ninguém. Pode é ferrar ainda mais quem já vaga pelo mundo derrotado. Poesia sem piedade, Cazuza! Mas, Mais vale um ser doente do que um sujeito indiferente. Palavra boa é a que abre a ferida. Às vezes, pra tirar o veneno. Outras, só pra falar que tem coisas que não vão cicatrizar, queiramos ou não.

Os poetas desse livro são hipocondríacos. Curtem ansiolíticos ao avesso, vidros e vidros de palavras alucinógenas, sedativas, viciantes, cheirando a hospital. Gostam mesmo é de efeitos colaterais. Saboreiam até placebos: umas palavrinhas mentirosas que confortam a alma (como se a alma ainda existisse na abulia broxante do século XXI…). Encontraram-se na internet. Fizeram saraus. Professaram o credo da poesia nos salões e nas ruas e, como não foram internados a tempo, estão agora aqui, publicados neste livro.
Tudo aqui é criação compartilhada: a poiesis é coletiva, mas se busca a veia lírica (essa crença no sujeito-mônada que insiste em falar de si mesmo). É deste conflito entre o partilhado e o individual que estas vozes ganham uma dimensão interessante: todas as cápsulas-poetas compõem um coquetel variado, sem receita inteligível, por melhor que seja a caligrafia do médico.

Este prefaciador não vai dar receitas, nem arriscar posologias. Apenas gostaria de imaginar pequenas fórmulas de composição (al)química dos poetas-cápsulas:

Elias Borges.
Viciado em microconto, em flashs de cenas insólitas, captando o humano em situações-limite, com um toque perverso de humor.

Fábio Gondim. 
Obcecado pelas coisas do corpo. Amor, ódio, saudade, toda essa arquitetura sentimental se engasta na fluidez do sangue. O ritmo arterial conduz os versos, sempre na iminência de pequenos infartos. Perigoso, esse cara.

Raquel Dias.
A depressão é doença pós-moderna. Mas o nosso fardo de frustrações pode não ser tão pesado como pensamos. Afinal, os frustrados convalescentes sabem como ninguém buscar compensações criativas, dentre elas a poesia. A voz lírica assume: dor boa mesmo é a de cotovelo.”

Raphael Lugo.
Deve ter lido Nietzsche, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e, pelo visto, caiu “nonada”. Tem como mania a inquietação filosófica sobre o fazer poético, alcançando tons sociais e lírico-amorosos, nos quais o ritmo e a imagem suplantam – ainda bem! – a vontade de conceituar as coisas.

Alexandre Kenji.
Esse aí é dos que acreditam em libertação individual das amarras de um mundo medíocre. Digam o que disserem, ele acredita em sentimentos autênticos. Contra o narcisismo insosso de nossa época, dá-nos o gosto amargo das mazelas sociais, como a lembrança dos meninos mortos na Candelária ou como a “putrefata” história brasileira. Fala da dor que, de tão forte, não pode ser mensurada. A poesia quer ir além da medicina, senhores.

Eva Vilma.
Imagens cósmicas, eternizadas, podem livrar o sujeito de ser descartado junto com os dejetos da sociedade de consumo. O afeto familiar, as lembranças de infância, opõem-se à superficialidade dos contatos virtuais. A poetisa exprime o desejo de que o tempo seja vivido radicalmente enquanto kairós, antes que seja deletado.

Márcio Filho.
Bares, sarjetas, viciados, solitários. É nesse universo do velho Bukowski que o poeta reencena o drama dos loosers e malditos, os que continuam sendo vomitados pelo sistema e, mesmo assim, abrem a boca para insistir no canto.

Valter Queiroz. 
Placebando aqui e ali, parece nutrir uma devoção por palavras como liberdade, vida e Amor (com maiúscula mesmo!), tentando restituir alguma importância a termos que se desgastaram demais nas telas do cinema e no folhetim nosso de cada dia. Discretamente, num poeminha chamado “O caos”, lateja o tédio, moderno e contemporâneo, capaz de corroer todo o entusiasmo desta poesia dos grandes sentimentos.

Carmem Lúcia.
Fã de mitologias, busca nos arquétipos alguma ossatura que sustente nossa vida sentimental tão inconstante. Gladiadores, Pandora, Quimeras se juntam à simplicidade de quem soube ler Adélia Prado, assumindo o tom de prosa quando da necessidade de entregar-se ao banal, restituindo o ritmo esmerado quando retoma solenemente imagens vindas do universo familiar e das recordações de infância.

Kenny Teschiedel.
Esse, não seguiu os conselhos do Quintana, quando disse que pra falar de amor, há que se falar baixinho apenas. Subiu nos telhados e alardeou o sentimento pra cidade toda. Falar “eu te amo” tanto assim é Tarja Preta. Cápsula espinhosa entalada na garganta. Entala, mas não mata. Como diz o poeta, tudo isso são as bobagens nossas de cada dia, a pessoa amada e o verso escrito. A dor, única certeza nossa, é também lúdica.

Com poetas mais maduros e outros mais verdes, o grupo Tarja Preta mostra a que veio, pois em meio às vozes vê-se um propósito: poesia como direito de surtar, no banal e no sublime. Que o surto poético se alastre. Afete-nos. Infecte-nos. Sobre o futuro da poesia? Mais epidemia, menos academia.

PREFÁCIO
Volmir Cardoso Pereira
Professor e pesquisador de literatura contemporânea (UEMS)

Serviço:

Nome do livro: Cápsula Tarja Preta

Data de lançamento: 05 de Julho de 2016

Horário: 19:00 h às 21:00 h
Local: Morada dos Baís

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